(Re)interpretando Cloud Atlas
A revolução molecular
Cloud Atlas, lançado em 2012 e traduzido no Brasil sob o nome de A Viagem, é um filme que traz seis diferentes histórias que vão do século 19 ao século 24. Dirigido pelas irmãs Wachowski em parceria com Tom Tykwer, o projeto aposta numa montagem (feita por Alexander Berner) que gera fluidez e prende a atenção do espectador, exigindo participação ativa para acompanhar as tramas do longa.
Por falar nelas, apesar de condensar seis tramas diferentes, Cloud Atlas faz com que personagens mantenham um papel específico ao longo das inúmeras histórias, sendo o de questionar a ordem estabelecida ou o de mantê-la. Alguns deles vão mudando de atuação progressivamente (como é o caso das personagens construídas por Tom Hanks), sugerindo assim uma interpretação cósmica e metafísica que procurarei não adotar como foco desta análise.
Também é legal notar alguns elementos de Matrix (1999), principalmente no que diz respeito ao futuro um tanto cyberpunk do qual Sonmi faz parte, além de haver uma espécie de embrião para a ideia principal da série Sense8 (2015-), ambos projetos criados pela dupla de diretoras.
Quanto aos núcleos narrativos do filme, são basicamente: um advogado que se junta à causa abolicionista; um músico homossexual que busca criar sua obra-prima; uma jornalista que investiga um esquema relacionado a companhias petrolíferas; um editor que planeja uma fuga de um asilo; uma andróide produzida para ser escrava e que questiona tanto os valores atribuídos à sua espécie; e, por fim, a vida depois de um evento chamado “A queda”, mostrado por meio do pastor Zachry (Hanks), responsável pela narração que abre o filme. As (possíveis e inumeráveis) ligações entre todas as tramas ficam a cargo do espectador, num exercício que, apesar de ressaltar certas falhas no filme, prima pelo prazer que estimula.
Um dos aspectos discutidos pelo longa e que acho extremamente interessante é a relação entre movimento instituinte e instituído, por meio da personagem Sonmi (Doona Bae). À semelhança de Jesus Cristo, Sonmi foi alguém que criticou o status quo de sua época, suas injustiças e crimes, tentando libertar também outras pessoas — inclusive há frases interessantíssimas pronunciadas pela personagem.
Ela, enfim, junto à causa revolucionária que era organizada, era um movimento instituinte, já que propunha algo diferente. No futuro, após “A Queda”, alguns povos a cultuam como uma espécie de Deusa, enraizando suas crenças (Zachry é tentado a matar quando suas crenças são colocadas em cheque), tornando-se assim instituída.
“Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem “ — Oscar Wilde
Outro ponto que percebi/interpretei e que também motivou este texto é que, além do amor, transcendência ou qualquer outra coisa, algo que amarra todas as tramas é o conceito de revolução. Em seus níveis locais, elas questionam a ordem, desobedecem e, assim, criam o novo. Trata-se de algo que se assemelha muito ao conceito da revolução molecular, de Félix Guattari; para além de revoluções marcadas e molares (institucionais — Estado, Igreja por exemplo).
De maneira básica, a ideia é que pequenas revoluções locais desembocam num grande evento revolucionário no futuro. Um advogado que se junta à causa negra deixa um diário que um músico homossexual que cria uma obra-prima lê. Por sua vez, o músico tem suas cartas de amor lidas por uma jornalista na sua jornada contra as petrolíferas, ao passo que ela deixa um manuscrito responsável por influenciar Timothy Cavendish, cujas aventuras darão origem a um filme assistido por Sonmi, antes de sua (fracassada) revolução. Por conta disso, a personagem se tornará cultuada pelos povos depois d’A Queda, criando um rizoma revolucionário incrível (prefiro interpretar a estrela nas personagens de modo imanente e rizomático ao invés de metafísico e transcendente — ações materiais que os conectam no espaço-tempo).
Apesar de algumas falhas técnicas de produção devido à ambição do projeto, Cloud Atlas é muito vasto e de modo algum esta análise esgota as possibilidades interpretativas e todos os temas trabalhados no longa. Todavia, acho que a crítica e o público deviam ter um olhar mais positivo sobre o filme — se o espectador se perde no roteiro é mais pelo acerto de não entrelaçar totalmente a trama por parte dos diretores do que por uma falha narrativa.
Assim, os comparativos que a já citada montagem proporciona somados ao tema revolucionário, que funciona como uma teia que atravessa as pequenas tramas (além de outros, como o amor), permitem às falhas parecerem vãs dentro do universo esperançoso que o filme constrói.




